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segunda-feira, 3 de março de 2008

Regiões da Europa II

Retomo aqui, depois de uns meses de interregno, a revista das Regiões da Europa, bocadinhos do nosso continente que, por um motivo ou por outro, lutam denodadamente contra o centralismo imperialista, chauvinista e opressor de outro bocadinho do nosso continente.

A homenageada de hoje é a Catalunha, ou melhor, os «Paisos Catalans», um pot pourri que amalgama as comunidades autónomas da Catalunha, Valência, Baleares, uns pozinhos de Aragão e o departamento dos Pirénées-Orientales (vulgo Rossilhão, em França). Se as regiões mencionadas a seguir à Catalunha estão muito interessadas nos PC, isso é outra conversa.
O nacionalismo catalão é um daqueles que, não sendo puramente lírico e épico como o escocês (veja-se o primeiro post desta série, de 18 de Setembro de 2007), não é puramente onzeneiro e mercantil como o da Flandres ou da Padânia. É assim um misto de ambos, mas em que o resultado é mauzinho. E mauzinho porquê?

Porque tudo quanto é simbólico do nacionalismo catalão fala de derrota. São umas vítimas históricas, os catalães e a sua terra. Uns desgraçados, portanto.

A começar pela bandeira, a Senyera (que significa "bandeira", em catalão e se lê senhéra), que, mesmo bonita, tem associada a lenda de que foi um conde de Barcelona, ao morrer em combate, que passou os dedos (4) ensanguentados pelo seu escudo até aí inteiramente dourado. Daí as quatro barras vermelhas sobre fundo amarelo. Mas até aqui tudo bem.

Depois há o dia nacional, a Diada (11 de Setembro), em memória do dia 11 de Setembro de 1714, em que, nos últimos estertores da Guerra da Sucessão Espanhola, as tropas de Filipe V tomaram de assalto as fortificações de Barcelona e fizeram um banho de sangue entre os defensores. Desde então (situação confirmada pelos decretos de Nueva Planta, de 1716) que a Coroa de Aragão, a que pertencia a Catalunha, tinha perdido os seus foros e liberdades. Foi o início da Espanha centralizada e unificada, e o dia nacional catalão assinala a sua derrota derradeira. Inspirador.


O hino, valha-nos isso, é Els Segadors, uma melodia tradicional com um som poderoso, e que fala de mais uma revolta fracassada, a dos camponeses em Junho de 1640, aproveitando a guerra entre França e Espanha.

Aliás, a propósito desta revolta circula a ideia pouco esclarecida de que os castelhanos se viram obrigados a escolher entre reprimir a Catalunha ou afogar a restauração da independência portuguesa, nesse mesmo ano. Nada mais falso: a Catalunha recebeu apoio activo da França, porque era teatro de operações e os catalães chegaram a declarar Luís XIII conde de Barcelona. Entre isso e Portugal, a premência da guerra fez da Catalunha a primeira linha. E a guerra com Portugal durou até 1668, já agora, décadas depois da derrota dos segadores. Pelos vistos, já nesse tempo, os catalães gostavam de estrangeiros para heróis do nacionalismo (e aqui falo do Figo, sim, que cometeu o crime de lesa-catalanidade de ir para o Real).

Enfim, não acho o nacionalismo catalão com muitas pernas para andar. Porque não faz apelo ao passado remoto mas robusto que tem (Jaime I, a expansão pelo Mediterrâneo, os Almogávares, a cultura) mas sim ao passado recente desgraçado que preferem recordar. E aos benditos 18% do PIB espanhol que produzem. Uau.

A bem da pluralidade, aqui fica o texto onde fui sacar a fotografia da bandeira, e o site do Conselho Nacional Catalão, onde se encontram dados sobre um país que não é.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Independencia do Kosovo foi melhor do que concerto de 50 Cent!

Lembro-me das aulas do 1º ano do curso de Relações Internacionais, onde à pergunta "Defina Estado?", saltava imediatamente a resposta "Para haver Estado tem de existir em simultâneo um Povo, um Território para esse Povo e Poder Político para governar esse território." É simples. Um Estado soberano é sintetizado pela máxima "Um governo, um povo, um território". O Estado é responsável pela organização e pelo controle social, pois detém, segundo Max Weber, o monopólio legítimo do uso da força (coerção, especialmente a legal).

Ontem, com a declaração unilateral de Independência do Kosovo, percebi que o Estado de Max Weber morreu. Nasceu um novo tipo de Estado. No Kosovo, o Povo é Albanês (que já têm um estado, ali, mesmo ao pé...), o território 'era' sérvio (ficaram sem uma parcela de território histórico), e o poder político é protegido pelas forças da ONU no terrreno (que já disseram que não tencionam sair de lá).

Três vivas para o Kosovo! Três vivas para Bush! Três vivas para a Albânia!

Três aspirinas para a Europa, porque agora vêm aí as dores de cabeça!

Já agora, diz Herzi Abdullahn, de 19 anos e que estuda na Escola Americana, que "Isto é melhor do que o concerto do 50 Cent, que esteve cá!"

... acredito!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A ementa é a seguinte...



E este site é uma delícia: http://www.eurominority.org/

Regiões da Europa

Caríssimos co-consertistas e eventuais leitores deste blogue:

Tenciono começar hoje com uma série de remendos sobre a símbologia das "nações sem Estado" que abundam na nossa Europa e por esse mundo fora. Começo com uma dessas regiões/nações que me desperta uma simpatia muito particular: a Escócia.

Não vou dizer nada de novo sobre a terra do haggis e do tartan. Aquilo que me toca na Escócia é que o seu nacionalismo não se alicerça numa prosperidade recém-adquirida nem no lamuriar monocórdico de uma litania de gravames (esta última frase saiu-me bem) contra os ingleses. Estes argumentos, existem, com efeito, no discurso nacionalista escocês, mas não constituem o seu cerne, ao contrário de outros lugares, que a seu tempo serão (mal)tratados aqui. O "Proud Edward's army" foi o derrotado em Bannockburn, em 1314, por Robert de Bruce, depois Roberto I da Escócia.

A bandeira nacional escocesa é a bandeira de Santo André, e figura, como reconhecereis, no "fundo" da Union Jack; a bandeira imediatamente abaixo é o estandarte real da Escócia, e a sua utilização está restrita - sob pena de morte, por lei de 1679 - a S.M. a Rainha Isabel II, enquanto Rainha da Escócia, e aos seus legítimos representantes.






























Last, but not least (deve ser lido com sotaque escocês), o estandarte pessoal de Isabel II, rainha da Escócia (a não confundir com o estandarte real da Escócia, que não varia, ao contrário das armas pessoais dos monarcas):


sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Queimar pessoas, mesmo em efígie, é algo muito espanhol

Quem tiver reparado em alguns dos meus remendos anteriores (i.e., Sebastião, Niccolo e o Consertista-Sem-Nome), terá notado que me interessa a temática dos países que ou se desagregam por si sós ou que são desagregados por outros.
Ora sói apontar ao país vizinho (não é Marrocos, é o outro) que ele mesmo integra essa lista, a dos países em desagregação. Razões há muitas, algumas mergulham mesmo no Jardim do Éden - há uma região oprimida pelo centralismo-imperialista de Madrid (não é a Catalunha, é a outra) que diz que a sua língua é aquela em que a Eva perguntou a Adão se lhe apetecia uma maçã. Por sinal, e pela mesma lógica, é aquela a língua em que o Demónio pela primeira vez faz a sua entrada na História e desgraça o ser humano. Não é um juízo de valor, é só uma nota.
Eu acho que o estilhaçar da Espanha, por cair no solo fértil dos nossos traumas portugueses, anda como as acções do Benfica: sobrevalorizado. É um tema que merece mais desenvolvimento e reflexão, claro, mas julgo poder falar por uma maioria esmagadora de compatriotas quando digo que não podemos reprimir um sorrizinho ao pensar em acontecer algo de ruim a nuestros hermanos. Nada de grave, que somos gente de brandos costumes, mas que os aborreça.
Dito isto, esta juventude, ao manifestar-se assim, dá provas de um espanholismo a toda a prova, de fazer chorar de orgulho grandes próceres da história da Espanha una, grande e livre. Como aliás, não me surpreendeu ver, numa caricatura aqui (há já algum tempo), Els Paissos Catalans unos, grandes e livres, recortados em oposição a Espanya, uma avantesma que, por sinal, não tinha fronteira a Ocidente e que chegava até Peniche... É nestas coisinhas pequenas que mostramos quem somos.